ELAS QUEREM ESTAR
PRESENTES
Mulheres negras estão ausentes no mercado e nas universidades e sofrem duplamente pela questão de gênero e pela questão racial
Se as mulheres negras já não se veem representados nas novelas, presentes em quase todas as telas da família brasileira, nas revistas ou no mundo da moda, que dirá no mercado de trabalho. De acordo com uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), feita em 2018 para o Dia Internacional da Mulher, as mulheres negras gastam, em média, 18,6 horas semanais com afazeres domésticos, ou seja, com trabalho informal/não remunerado. Isso se reflete na dificuldade dessas mulheres de ingressar no mercado de trabalho e permanecer nele. Essa webreportagem expõe as dificuldades e barreiras enfrentadas por mulheres negras a partir da questão de gênero e pela questão racial.
Outra pesquisa do IBGE, de 2016, mostra que apenas 10,4% das mulheres negras completam o ensino superior. Apesar das mulheres terem maior percentual de conclusão de ensino, esses dados mostram uma desigualdade racial no quesito educação.
Tatiana Cavalcante de Oliveira Botosso, 40 anos, é mestre pelo programa Mudança Social e Participação Política da EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e, para ela, o maior desafio da mulher negra no mercado de trabalho está estritamente relacionado com o estereótipo herdado de um passado escravocrata. Na época da escravidão, a mulher negra era “coisificada” e objetificada em sua condição sexual. Uma de suas obrigações na casa grande era ser ama de leite dos senhores de escravos e serviços domésticos, classificada como mucama.
“Toda condição estereotipada da mulher negra remonta a essas relações raciais. Ela é sempre vista como objeto sexual ou como doméstica e força braçal de trabalho.”
Isso se traduz hoje na condição de mulheres negras em serviços braçais e em posições sociais inferiores. Tatiana relaciona essas situações com a ausência de mulheres negras em processos seletivos de altos cargos, por exemplo. “A condição de gênero e de raça faz com que a mulher negra seja duplamente discriminada”, completa. Ela acredita que o primeiro desafio é romper com tais estereótipos, conseguindo mostrar seus potenciais em uma entrevista, por exemplo. “Conforme você aumenta seu grau de escolaridade, vai ficando mais complicado, pois isso foge do estereótipo e da realidade da grande maioria das mulheres negras no país”, conclui.
FEMINISMO NEGRO E SUA CONTRIBUIÇÃO NO MERCADO
Segundo a pesquisadora, existem registros que indicam que as mulheres negras se juntavam em irmandade nas igrejas católicas para que velassem os corpos de outras pessoas negras e também para comprar a carta de alforria daquelas que ainda não possuíam liberdade no fim da escravidão. “As mulheres negras estão nos movimentos de base e sempre estiveram lutando”, complementa.
Atualmente, há uma maior participação dessas mulheres em movimentos sociais. Muitas militam em movimentos, como o que promove cursinhos populares de pré-vestibular. “Há uma ação de mulheres negras na questão militante, uma ação mais direta do que na questão acadêmica”. Para ela, essa participação decorre de uma autoaceitação e do empoderamento que o feminismo negro vem, aos poucos, trazendo para a realidade da mulher.
Tamires Sampaio é a expressão disso. Militante do movimento negro e do movimento feminista, ela se formou em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Hoje, a advogada é mestranda e baseia suas pesquisas em prol de seus pares. Veja abaixo:
A QUESTÃO RACIAL
No ambiente corporativo brasileiro é nítido o abismo social. Dados de pesquisa do Instituto Ethos, realizada em 2016, afirma que pessoas negras só ocupam 6,3% dos cargos de gerente e 4,7% do quadro de executivos nas empresas que foram analisadas pelo estudo. No caso das mulheres negras, a distinção é ainda maior. Entre elas, apenas 1,6% são gerentes e só 0,4% participam do quadro de executivos. Ou seja, são só duas, entre 548 diretores.
“Racismo é uma questão estrutural, então ele estrutura as questões institucionais da sociedade”
– Tatiana Oliveira
A jornalista, que também é doutoranda pelo Programa Integração da América Latina, faz uma análise sobre o sucateamento do ensino público, já que apenas 9,8% dos alunos de universidades federais são pretos, segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), em 2016.
Nas escolas, os projetos pedagógicos não incluem e não representam pessoas negras e/ou com dificuldade. “Isso é um funil e quando você chega na seleção pra universidade pública já não tem mais negros”, analisa. Segundo a pesquisa “Estatísticas de gênero – indicadores sociais das mulheres no Brasil“, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018, apenas 10,4% das mulheres negras finalizam o ensino superior.
“Isso passa pelo sistema judiciário, pelo sistema de saúde, e o racismo estrutura todas as relações em todos os campos no Brasil”, acrescenta.
Para a especialista, as empresas e instituições devem adotar atitudes inclusivas. Ela cita projetos que oferecem estratégias de inclusão, como o CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades). O projeto trabalha com a promoção da igualdade racial desde 1995, e desenvolve soluções para o tratamento das relações raciais desde as primeiras atividades escolares.
Buscando aumentar a diversidade, empresas privadas e instituições têm procurado programas que promovem a inclusão, como o projeto EmpregueAfro.
A fundadora do projeto, Patrícia Santos, observou a ausência de figuras negras nos processos seletivos e nos colaboradores das empresas majoritariamente brancas e abriu sua consultoria. A analista de Recursos Humanos da empresa, Eimy Rocha, 33, conta que a consultoria oferece o recrutamento e a seleção dos candidatos negros, além de um acompanhamento de três meses com os profissionais, após o ingresso na instituição. O projeto também oferece um pacote que tenha palestras com os gestores e com toda a instituição para viés de conscientização e análise do perfil que a empresa busca.
“Além de a pessoa ser contratada, ela precisa se ver dentro da empresa e ela não pode sofrer racismo, senão o projeto não adianta”, explica.
A consultoria também faz uma espécie de roda, chamada de aquilombamento, onde os profissionais compartilham suas dores a partir de uma temática definida pelo EmpregueAfro. As vagas são publicadas para todas as regiões do Brasil, através de redes de divulgação, e 40% das vagas são feitas através da busca ativa, ou seja, há um recrutamento específico do profissional.
Eymi destaca a dificuldade de profissionalização de profissionais negros e afirma a importância de uma valorização das empresas para que haja oportunidades de capacitação. “Muitas vezes o gestor quer contratar alguém com o perfil próximo ao dele, um intercambista, alguém com inglês avançado, mas são oportunidades que o negro não teve”, indaga. Ela afirma que isso acaba perpetuando na contratação de pessoas brancas e, por isso, destaca a importância de a empresa gerar oportunidades, dar subsídios de crescimento e cursos de capacitação para o profissional.
Ela acredita que a dificuldade de mulheres negras de disputar vagas sêniores é grande e se torna maior por existir uma grande quantidade de mulheres negras que são mães. “O homem tem mais facilidade de fazer um curso e de se profissionalizar, porque ele não tem a preocupação com um lugar para deixar o filho, por exemplo”, justifica.
A advogada Helane Cabral conta como passou pelas dificuldades que enfrentou até chegar no sucesso profissional:
SUPERAçAO
Aisha Mariá Freitas é uma dessas mulheres. Com apenas 28 anos, ela é formada em Psicologia pela Universidade Cruzeiro do Sul e possui um magistério de quatro anos, cursado em uma escola municipal. Aisha acredita que, a partir de agora, o obstáculo que vai enfrentar é a questão da capacitação profissional.
A psicóloga, que pretende cursar pós-graduação em Psicanálise, iniciou seu processo de profissionalização em curso de magistério, quando se encantou pela profissão. Aisha cursou o ensino médio na rede pública, como 55,5% da população negra, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do IBGE, em 2014.
A menina negra que sofria bullying no fundamental, ouviu certa vez de uma de suas professoras, sem diagnóstico, que sofria de um transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e, apenas anos depois, isso foi desmistificado para ela. Ela relata que, desde o ensino fundamental na rede particular sempre foi uma das duas pessoas negras em uma classe com, no mínimo, 30 alunos.
Durante seu período universitário, sentiu a defasagem advinda do ensino público. “Eu tive dificuldade de adaptação. Eu me sentia inferior, pois eu achava que eu era muito ruim”, relembra. Após receber apoio e incentivo de seus professores, completou seu o curso de cinco anos em sete.
“Nos últimos anos (da graduação) eu comecei a ficar irritada, porque meu apelido lá era pretinha”, relata. Ela conta que, no início, demorou para conseguir falar isso para seus companheiros e tinha medo de que soasse como um martírio.
Aisha, que foi nomeada a partir de um dicionário de nomes africanos, conta que após a faculdade sua maior dificuldade é ter seu próprio consultório e mantê-lo. A psicóloga atende em três unidades na cidade de São Paulo e subloca os consultórios para atender seus pacientes.
“Os consultórios não são meus. Eu tenho que pagar para uma loira de olho azul e isso me incomoda”, conta.
Durante o período que atua no mercado, Aisha vê poucos colegas de trabalho negros e conta que já sentiu diversas vezes sua capacidade sendo subestimada pela maioria branca. “Não é difícil crescer na minha área. O difícil é o reconhecimento dos seus colegas de profissão, principalmente quando você é autônomo”, acrescenta. Aisha conta que ao invés de receber o reconhecimento merecido por ter muitos pacientes, o que ouve é: “Nossa Aisha, sua agenda está cheia, você não vai aguentar”.
A psicóloga possui grande demanda de atendimento em questões raciais e conta que seu objetivo é promover a expressão para seus pacientes. “Eu engolia muito sapo, e a gente precisa colocar isso para fora, então eu tento oferecer isso hoje.”
As dificuldades que essas mulheres enfrentam estão ligadas a dura repressão da sociedade sobre elas. E mesmo depois de tantas barreiras enfrentadas, Tatiana, Patrícia, Aisha e diversas outras mulheres negras não deixam de se erguer e seguirem seus sonhos. Essas mulheres só querem ter igualdade de oportunidades, elas só querem ser presentes.
estão em condições precárias de trabalho
entre 548 executivos
quadro executivo
da gerência
são membras da Câmara dos Deputados
Mulheres negras no mercado de trabalho








